Santa Luzia Berço de Brasília

Como qualquer jornalista saberia, sua obrigação mais fundamental é a verdade.  A verdade não é entendida como uma lei da ciência, mas como fatos verificáveis ​​apresentados em um contexto significativo. Com o objetivo de facilitar o debate e, eventualmente, chegar a boas decisões.

 O jornalismo existe para lançar luz sobre o que alguém deseja manter no escuro, desafiar os postulados daqueles que estão em busca de poder, informar os cidadãos sobre se a gestão de nossos recursos comuns é boa ou ruim ou, para ser mais preciso: capacitar os informados.

 

 Informar com precisão torna-se obrigação, quanto mais informados forem os cidadãos, melhores serão as decisões que tomarão, mais exposta a má administração e abuso de poder, mais os não-ditos terão voz, mais terão condições para melhor discernimento, e para os mais fracos uma verdadeira democracia.

 

 O jornalismo vem sendo ao longo dos anos ferramenta para manter viva de forma precisa a história e o comportamento da sociedade.  Neste Domingo é dia de Cultura, reviveremos o mês de abril do ano 1982 com a matéria do jornal “A Voz de Luziânia”, intitulada:  SANTA LUZIA BERÇO DE BRASÍLIA, escrita por ninguém menos que o próprio GELMIRES REIS.

 

 No ano em que Brasília comemorou o 22º ano de sua inauguração, para muito as festividades desse aniversário soaram como se o Governo do Distrito Federal não tivesse elaborado um programa à altura da Capital da Republica.

 

O que se deve louvar, é que o Governador Aimé Lamaison quis que as festividades se voltassem mais para os habitantes que nela vivem e trabalham, do que para os turistas que bebem de sua beleza plástica.  Embora modesta  -  em gestos e esbanjamentos – a festa além da exibição de artistas com repertório basicamente brasileiro, mereceu rasgados elogios pela realização de uma gincana cultural, para a população dela participante conhecesse pontos históricos da cidade.

 

 A iniciativo foi válida mas merece alguns reparos.  Por que não se incluiu a visita a pontos como o Marco da Pedra Fundamental da Nova Capital, localizado em Planaltina?  Antes de Brasília existir como tal, houve heróis anônimos que participaram de três importantes fases:  a mudancista; a do levantamento para escolha do local e a de sua implantação.

 

Nesta edição o jornal “Voz de Luziânia” conseguiu uma façanha a ser fixada para a posteridade, reunindo no dia 21 de abril de 1982, no Aeroporto de Luziânia, alguns baluartes desses três momentos: Gelmires Reis, Guiomar de Arruda Câmara, Jose Ferreira de Castro Chaves, Sebastião Calazans, Luciano Pereira e Mercedes Pereira.

 

A HISTÓRIA

Por ironia da história, Brasília foi inaugurada como Capital da República no dia em que foi enforcado José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes.  Há quase duzentos anos – mais precisamente em 1789 – Tiradentes e seus companheiros levantaram a necessidade de transferência da capital do País para o interior da então colónia de Portugal.

 

A ideia nascida na conjuração Mineira, teve, no decorrer do 1º e 1º Impérios, vários defensores, mas não chegou a conseguir encaminhamento prático.   Até que com o advento da República, foi inscrito na Constituição Provisória um artigo que deva ao Congresso a responsabilidade de deliberar sobre a sua transferência.

 

 Em 1891, Lauro Mulher apresentou uma emenda à proposta do senador Virgílio Damásio, pela qual, pela primeira vez, era indicada a zona do Planalto Central a ser demarcada e desapropriada.   Assim é que, na Constituição Republicana de 1891, o artigo 3º diz:  “Fica pertencendo à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 Km², que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal.

 

 Em maio de 1892, o Marechal Floriano Peixoto nomeava a “Comissão Explorado do Planalto Central do Brasil”, chefiada por Luiz Cruls, diretor do Observatório Astronômico.  Luiz Cruls, cercou-se de engenheiros, higienistas, geólogos, botânicos, naturalistas, astrônomos que em lombo de burro, percorreram 4 mil quilômetros, terminando por demarcar uma área com os 14.00 quilômetros previsto por lei.

 

MUDANCISMO

Por cerca de 26 anos não há providências concretas pela transferência da Capital, apesar de pronunciamentos e moções no Senado e na Câmara dos Deputados.    Era deputado federal por Goiás, Antônio Americano do Brasil, no fulgor dos seus 29 anos de idade.  Dotado de uma cultura enciclopédica que abrangia a Medicina, a Historiografia, a Poesia e a Sociologia.   Americano do Brasil iniciou a luta pela mudança da capital federal, e desde logo conseguiu sensibilizar grande parte da Câmara dos Deputados em seu proselitismo.

 

Aproximava-se o centenário da Independência e Americano Viu no evento, a pedra de toque para comprometer o Congresso o que fora preceituado na primeira constituição republicana.  Alia-se ao deputado maranhense Rodrigues Machado, e juntos apresentam no dia 7 de setembro de 1921, o Projeto que tomou o número 680 na Câmara dos Deputados, determinando que fosse lançada a pedra fundamental da futura Capital Federal no Planalto Central brasileiro.

 

Após tramitar por todas as comissões técnicas do Senado e da Câmara dos Deputados, no dia 18 de janeiro de 1922, a iniciativa era coroada de pleno êxito com a sanção pelo presidente Epitácio Pessoa do Decreto nº 4.494 que determinava o lançamento da pedra fundamental.

 

Coube ao engenho Balduíno Ernesto de Almeida a tarefa da confecção do marco e a escolha do local para sua implantação.   Balduíno de Almeida escolheu um morro nas proximidades de Planaltina – Morro do Centenário – onde veio a se cumprir a determinação legal.

Nessa solenidade compareceu o jornalista Gelmires Reis, na condição de representante do deputado Rodrigues Machado – co-autor do projeto – e de representante da imprensa goiana.

 

Gelmires Reis abraçou nessa data a bandeira mudancista, e em 1927, já como Intendente Municipal de Santa Luzia – havia sido eleito par o cargo – enceta a campanha pela mudança da capital.   O fazendeiro Delfino Machado de Araújo, sensibilizado por Gelmires, doou terras à municipalidade para serem loteadas e distribuídas a preço simbólico nas grandes cidades brasileiras, a atração para a campanha mudancista.   O loteamento recebeu o nome de “Planaltópolis”, e segundo Gelmires Reis, estava situado as margens do Paranoá,  onde hoje está edificado o Palácio da Alvorada.  Com o advento da Revolução de 1930 e o afastamento de Gelmires Reis da Intendência Municipal, esvaiu-se por entre os milhares de decretos de Getúlio Vargas uma arrojada iniciativa dos idealistas da mudança.

 

LEVANTAMENTO

Com a queda da ditadura de Vargas, no processo de redemocratização do País, foi inscrito na Constituição Federal de 1946, em seu Artigo 4º que “a capital da União será transferida para o Planalto Central do País”.  Empossado presidente da República, o Marechal Eurico Dutra nomeou uma “Comissão de Estudo para Localização da Nova Capital do Brasil”, composta por 12 técnicos e chefiada pelo General Djalma Polli Coelho.

 

Em maio de 1947 passou a Comissão Polli Coelho aos trabalhos de campo, construindo as seguintes subcomissões:  de Investigações Geográficas; de Estudos Geológicos; de Estudos Agronômicos: de Energia e de Climatologia.

 

O agrônomo economista Antônio de Arruda Câmara, foi nomeado presidente da Subcomissão de Estudos Agronômicos e, no dia 19 de setembro de 1947 partiu do Rio de Janeiro com destino a Goiânia, acompanhado de sua esposa Guiomar de Arruda Câmara, percorrendo por três meses o Planalto Central e o Triângulo Mineiro, refazendo o trajeto da Expedição Cruls.  Levantaram as águas correntes, lagoas, açudes, poços artesianos e a qualidade de suas Águas, sendo que Guiomar de Arruda Câmara fez na ocasião todo o mapeamento cartográfico e hidrográfico percorrido.

 

O relatório de Antônio Arruda Câmara deu a Comissão Polli Coelho os subsídios para as conclusões finais, que resultaram na delimitação da área onde viria a ser implantada Brasília.

 

IMPLATANTAÇÃO

Para muitos a saga de Brasília foi iniciada no dia 18 de abril de 1956, quando o presidente Juscelino Kubitschek assinou em Anápolis a Mensagem ao Congresso Nacional pedindo autorização para fixar a área do Distrito Federal.   Para outros, ela se deu realmente no domingo, 11 de novembro de 1956, quando Juscelino despachou o expediente presidencial da Residência Provisória do Presidente da República – o Catetinho.

 

No dia 16 de outubro de 1956, o Guarda de Campo do Aeroporto de Luziânia Luciano Pereira, recebeu o engenheiro José Ferreira de Castro Chaves – e os operários Sebastião Calazans – Tião da Onça – Francisco Monteiro – Chico Português – e José Joaquim dos Santos – o Peixinho, trazidos de avião pelo comandante João Milton Protes.

 

Em dez dias o maestro Juca Chaves e seus três melhores solistas, à frente da orquestra de martelos, serrotes e tarraxas, davam a conhecer ao mundo um novo período na história brasileira, estava construindo o Catetinho e instaurando o “Ritmo de Brasília”.

Foram eles, José Ferreira de Castro Chaves, que acedeu ao convite do “Vos de Luziânia” e se deslocou do Rio de Janeiro, para 26 anos depois retornar a Luziânia, Sebastião Calazans, o primeiro operário que pisou o solo do Aeroporto, Guiomar de Arruda Câmara, que fez os mapas da Missão Polli Coelho, Luciano Pereira e dona Mercedes, que receberam operários e presidentes,  que juntaram-se no dia 21 de abril de 1982 ao mais antigo personagem dessa história, que fala, escreve, faz poesia e sonha com o ouro dos morros da antiga Santa Luzia da Marmelada: Gelmires Reis – o Bilo.

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