Domingo é Dia de Cultura - A Cultura do Marmelo Vale Ouro

 Poucos são os brasileiros que conhecem a origem do marmelo ou mesmo conhecem a fruta, que à primeira vista parece ser uma maça dura e ácida.  O marmeleiro (Cydonia Oblonga Mill) foi uma das primeiras plantas introduzidas no Brasil.

 

Quando Martim Afonso de Souza aportou em São Vicente, 1532, portando 431 (488 hoje) anos, trouxe de Portugal, da Ilha do Açores e da Ilha da Madeira, mudas de cana de açúcar, videiras, romãzeiras, várias espécies de cítrus, e o marmeleiro.

 

Dentre as culturas que rapidamente prosperaram, destacaram-se a marmelicultura  e a da cana de açúcar.  O testemunho dessa florescente cultura nos foi legado pelas crônicas do Padre José Anchieta.  E ele descreve: “é terra de grandes campos, fertilíssima de muitos pastos e gados, de bois, porcos, cavalos, e abastada de muito mantimentos.  Nela se dão uvas e fazem vinhos, marmelos em grande quantidade e se fazem marmeladas”.

 

A marmelicultura ganhou valor e expressão econômica, a partir das expedições e bandeiras, quando se constituiu em “alimento estratégico “ para a internação dos bandeirantes.  A marmelada era o alimento de reserva que garantia a recuperação das energias, até que se abatesse uma caça para saciar a fome dos bandeirantes que se embrenhavam pelas matas, sem conhece-las.

 

O Conde Afonso de Escragnole  Taunay, em seu livro “São Paulo no primeiros Anos” afirma que a marmelada fabricada pelo padre Guilherme Pompeu era exportada para o interior brasileiro , sendo o seu pagamento feito em ouro, valendo um quilo mais de 6 gramas em ouro.

Com o declínio da mineração, a marmelada sofreu seu revés, e, quando da queda da monocultura do café, ela ressurgiu vigorosa no sul de Minas Gerais.

Em Luziânia, a antiga “Santa Luzia da Marmelada”, a cultura veio também com a mineração do ouro.

 

A nossa marmelada ganhou fama e saltou das fronteiras de Goiás.  Muitos médicos a receitavam como remédio para anêmicos, convalescentes e para portadores do “mal dos poetas”, a tuberculose.

 

Do ouro que saiu dos morros de Luziânia, ficou a tradição da marmelicultura na região do Quilombo do Mesquita, embora todas as famílias conservassem em suas fazendas e residências a cultura do marmelo para o consumo familiar.

A marmelicultura vive hoje, em 1983, a sua maior crise por falta de apoio governamental e técnico, e é bom lembrar que marmelada boa vale ouro.

 

MARMELICULTURA ESTÁ NO FIM

A Marmelicultura, que durante séculos foi uma das atividades mais rendosas no município de Luziânia, teve em 1982 um dos piores anos em toda a sua história.

A safra  colhida foi de apenas 15% em relação aos anos anteriores.  Para o moradores do arraial do Mesquita – antigo Quilombo – uma das causas disso foi a mudança climática que a região ve sofrendo, a partir da construção de Brasília.

 

“Não  sei não – diz Leão Teixeira Magalhães, 69 anos, e descendente dos escravos alforriados que constituíram o Quilombo - mas depois de Brasília, as manchas de mata foram derrubadas, a fontes de água estão secando e o asfalto esquenta.

 

Esse ano aqui no Mesquita só o Ditão (Benedito Gonçalves Soares) conseguiu salvar alguma coisa, mesmo assim, muito pouco”.

Leão Teixeira Magalhães, esteve junto com o jovem Ildefonso Teixeira Magalhães preparando as caixetas pra o “doce” de Benedito Moreira, morador no arraial do Mesquita.  O marmelicultor Benedito Gonçalves Soares, embora seja em 1983 o que mais colheu marmelos, de seus seiscentos marmeleiros, colheu apenas 4.500 quilos.  Já que, em colheita plena, os mesmos marmeleiros chegam a render mais 100 quilos de frutos cada um, deveria ter colhido não menos que 40.000 quilos.

 

Em sua fazenda de 18,5 alqueires, Benedito Gonçalves Soares crê que “se recebêssemos apoio técnico do Ministério da Agricultura e financiamentos por partes dos bancos oficiais, poderíamos transformar o panorama econômico do município.

 

Já perdemos a lembrança – continuou o produtor – do tempo em que agrônomos passaram por aqui a identificar doenças e a nos ensinar como combate-las.  Veja que este ano quase não se colheram frutos.  Aqui nos conseguimos um pouco mais, graças ao adubo do gado que utilizei.

 

Todas as plantas têm exigências especificas, e o marmeleiro tem que ser podado na época certa, adubado na época certa.   Um outro grande problema vivido pelo marmelicultores que produzem não só os frutos, mas também a marmelada é a confecção das caixetas.

 

Leopoldo Antônio Gonçalves – afirma que “em dois anos estarão extintas totalmente as madeiras utilizáveis para caixetas; o mandioção e o caixeteiro”.

O ex-prefeito Oscar Braz, e seu filho, o empresário Délio Braz de Queiroz, proprietários da Fazenda São Sebastião,  lançaram-se ao desafio de recuperar o cultivo do marmelo, e resgatar a antiga tradição de Luziânia em vias de desaparecer, face à omissão dos órgãos federal e estadual, plantando 8.000 pés de marmelo.

 

Sem nenhum financiamento, Oscar Braz e Délio injetaram mensalmente na fazenda mais de Cr $ 400.000,00.

E é o ex-prefeito quem explica: “ A cultura do marmelo exige muita dedicação.  A entomosporiose, conhecida vulgarmente como “requeima”, é o pior mal.  Além do fungo da entomosporiose, há também o da “podridão amarga”.   Para combate-las, temos que usar a “calda borgalesa” e a “calda sulfo-calcica”,  que estão caríssimas pois usam sulfato de cobre e flor de enxofre para sua confecção.  Sem apoio creditício essa cultura está fadada a desaparecer depois 400 anos de existência no Brasil.    Nossa esperança está depositada no novo governo de Goiás.

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