Histórias de Luziânia: Dita de Bilo e a grande família da Rua do Santíssimo Sacramento



Até o surgimento de Brasília, a cidade de Luziânia vivia tranquila, num doce reviver de costumes e tradições, bastando-se quase por completo. As pessoas ali conviviam com afetividade. Identificando-se pelos apelidos de infância, muitas vezes a ele anexando o nome do pai, da mãe ou do marido, para melhor designá-las. Assim, Neném esposa de Joaquim Gilberto, político influente e intelectual de mérito; Dita de Bilo indicava a mulher do historiador Gelmires Reis, Bilo na intimidade, respeitado o memorialista da cidade.

Pois é justamente à Dita. (Escolástica Benedicta Carneiro Reis) que me refiro hoje. Casada aos 15 anos de idade, passou a viver num casarão na Rua do Santíssimo, onde, com doçura e paciência, criou sua grande família. Na difícil tarefa, foi sempre apoiada e auxiliada pelo esposo, em uma época em que não era usual tal colaboração. Quando, no planalto, surgiu a nova Capital Federal, os doze filhos de Dita já estavam contribuindo para o aumento familiar, agregando-lhe noras, genros e netos, cujas chegadas eram recebidas com alegria.

Poucos forasteiros buscavam conhecer a Luziânia de então. Os mais curiosos, em lá chegando, viam-se observados, mas com discreto interesse. Brasília não era bem abastecida de víveres e, certa vez, um dos visitantes, na antiga cidade, aproximou-se de um cavalheiro que trazia belos frangos, dependurados no varal, tentando adquirir alguns. A recusa foi justificada: "Os frangos são pra Siá Dita, se num quisé argum, então posso vendê pro sinhô".

Nosso viajante acercou-se de outro roceiro, que trazia queijos e ovos, obtendo a mesma resposta. Quando, finalmente, desejou comprar guarirobas, polvilho e rapadura e não conseguiu, ficou muito irritado e perguntou a José de Candu, dono da pensão onde se hospedara: "Mas, afinal, quem é essa Siá Dita? Tudo é pra ela! Tem por acaso, uma mercearia? Após descobrir o que era mercearia, palavra ainda não introduzida no vocabulário do povo, respondeu-lhe: "Ela não tem venda não. Siá Dita é a mulher do promotor, gente muito boa. Ela compra pra ajudar e também pra fazer caridade"

"O senhor acha que, seu eu lhe falar, ela me cede alguma coisa?"

"É possível. Vai lá. É aquela casa grande e branca com janela azuis e uma escada na frente."

E lá se foi o pioneiro brasiliense tentar negociar com a matriarca Luziânia. Ela recebeu-o com a habitual delicadeza, servindo-lhe delicioso café com biscoitos, enquanto lhe ouvia o pedido. Mandou, então, buscar dois frangos e a dúzia de ovos solicitada e, sem nada lhe cobrar, ainda acrescentou um queijo, justificando-se que "aonde vai o ovo, precisa ir o queijo para a quitanda".

Ficaram muito amigos e, daí a algum tempo, trouxe a esposa para conhecê-la, sendo convidados para um almoço com a família. Compreendeu ele, então, o motivo do prestigio que Siá Dita gozava junto aos fornecedores que tanto o contrariaram: além de comprar-lhes a produção e mandar um agradinho para a comadre, mostrava real interesse por seus problemas auxiliando-os no que lhe fosse possível.

Sua fé religiosa era ilimitada. Como provedora do Asilo de S. Vicente Paulo, muitas vezes via escassear os alimentos necessários. Não desesperava, porém, pois Deus daria um jeito. E sempre surgiam doadores inesperados que, vindos das fazendas próximas, abasteciam a despensa dos pobres, que ali se achavam recolhidos.

Passaram-se os anos e o novo amigo, tempo, após haver cumprido sua missão em Brasília, regressou ao Rio de Janeiro, sem dar mais notícias. E qual não foi a surpresa de Dita e Bilo quando, em que completavam 50 anos de feliz matrimonio, viram estacionar em frente à sua casa um furgão da Vasp, fazendo-lhes a entrega de linda corbeille, acompanhada de afetuoso cartão, enviados pelos amigos que, apesar da distância, deles não se esquecera.

Autor: Belkiss Spenciere Carneiro de Mendonça.

Crônicas & outras histórias do Jornal "O Popular"

Goiânia, segunda-feira, 28 de julho de 1997


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